• Denise Martins Silveira

Águas de Março


Como todo ano no verão, as fortes chuvas chegam sem pedir licença ou autorização, não há necessidade de estudarmos muito o assunto. Uma simples conversa com quem vive na região por muitos anos e logo temos a certeza de que a costa sul fluminense, a costa norte paulista e até a capital do Rio de Janeiro já conhecem essas chuvas torrenciais antes mesmo da chegada de nossos colonizadores portugueses.

No início da década de 1970, Tom Jobim transformou a chuva em poesia com “Águas de Março”, cantada por ele e pela inesquecível Elis Regina. Pouco tempo depois, foram grandes as dificuldades na construção da BR 101, no trecho que corta nossa região, em virtudes das fortes chuvas do período. Ressalto que, independente da abstração da poesia ou da precisão da engenharia, uma anunciando o fim do caminho e outra abrindo o caminho e desenvolvendo a região, a chuva já deveria ser respeitada e todos sabiam.

Décadas depois estamos aqui na mesma na região, assistindo os responsáveis minimizarem os efeitos das chuvas, anunciando que por essa intensidade ninguém esperava, como se essa fosse uma novidade. Mas, prejuízos, transtornos, questões administrativas, sujeira (e tantos outros inconvenientes) tudo fica em segundo plano quando perdemos vidas e, infelizmente, na capital do Rio de Janeiro e em Ubatuba, perdemos!

No caso de Ubatuba, sei como ninguém o que é governar por oito anos consecutivos e esperar o período das chuvas. Nesse período de governo tive muitas alegrias, tristezas e orgulho. Alegrias a cada obra ou serviço sonhado por todos e entregue à comunidade. Tristeza a cada erro, fracasso ou sonho da população não realizado. Orgulho de cada realização que parecia impossível, mas não posso desviar do propósito desse blog, e não falo aqui como político, mas também não tenho como não comentar um dos meus maiores orgulhos, quando na administração da cidade: o Programa de Congelamento.

O programa, que é a regularização, controle, remoção e paralização da ocupação desordenada em nossa cidade, seja em área de preservação, risco ou loteamento clandestino, estancou o crescimento desordenado em Ubatuba. Tenho a sensação de dever cumprido por ter tido a coragem na oportunidade, apesar de ameaças políticas e pessoais, de não ter recuado e em saber depois que o resultado dessa preocupação e ousadia administrativa ajudou muito na preservação de nosso meio ambiente, ter organizado nossa tão sofrida periferia e principalmente ter poupado vidas.

Esse último motivo, independente da avaliação de homens, me deixa em paz perante Deus. Por ser um trabalho contínuo, não existem placas de inauguração do congelamento, não podendo assim essas serem trocadas covardemente e, ainda que pudessem, não seria importante. A verdade é que como cidadão assisti o projeto ser totalmente abandonado por dar a impressão que ele possuía um “Pai Político”. Grande engano, a desordem voltou. Os mangues, as encostas e áreas de risco estão novamente vulneráveis. Há cinco anos e dois meses acabou o Programa de Congelamento e com ele, algumas perspectivas otimistas de um futuro seja habitacional, ambiental ou socialmente desenvolvidos.

Por mais que a classe política, no âmbito municipal, não se importe com isso, como cidadão creio, em outras esferas de poder e governo, cedo ou tarde essa responsabilidade será cobrada de quem administrou ou administra nossa cidade. Nessa hora, neste assunto eu terei muita paz em dizer ao Ministério Público, Judiciário, ou a familiares de vítimas, que enquanto eu estive investido do poder/dever de servir ao público, eu fiz a minha parte.

Governos passaram, 2017 passou, Tom Jobim e Elis Regina também, mas as cada novo ano teremos as águas de março fechando o verão. Deus nos ajude!

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