• Denise Martins Silveira

Desprezíveis


Enquanto eu lia a entrevista do ex-ministro José Dirceu sobre sua prisão, um filme passava pela minha cabeça. Não parece normal fazer analogia do comportamento de um homem tão poderoso na esfera nacional com um secretário municipal, comparar empresários gigantes com pequenos comerciantes que sobrevivem nos bairros, homens fortes e influentes do Congresso Nacional com vereadores de cidades pequenas. Pode parecer uma coisa ridícula, mas acredito que comparações absurdas fazem parte da nossa vida e, em algum momento, todos nós as fazemos.

Seria difícil para mim, porém, ler o que disse José Dirceu sem observar seu equilíbrio e a clareza de sua visão em relação ao tempo que passará de novo na cadeia. Não digo que concordo ou discordo totalmente do que ele diz, mas quem já participou ou participa de atividade onde há organização, sonhos, realizações, hierarquia e muitas vaidades envolvidas sabe o quanto é raro pessoas firmes e convictas das dores e delícias que trazem o poder.

Seja o síndico de um pobre conjunto habitacional popular ou o líder de uma rica nação, sempre haverá aliados leais e companheiros de sonhos e lutas. Entretanto, sutil e convincentemente, espaços importantíssimos serão ocupados pelos oportunistas que chegam nos momentos que a vitória parece próxima ou, inacreditavelmente, começaram junto o sonho, grande ou pequeno, com uma aparente fidelidade inabalável que fará qualquer líder ter a certeza que são mais que companheiros. Os covardes parecem amigos.

Seria muita pretensão de minha parte avaliar até onde foram os erros e acertos de Lula e Dirceu, mas seguramente, muitas pessoas se beneficiaram e participaram ativamente de todas as atividades boas ou ruins produzidas ao longo dos anos em que o poder era deles. Não falo aqui do povo ou dos reflexos sociais, bons ou ruins, produzidos pelo governo. Me refiro às pessoas que, sem qualquer projeção ou condição, receberam a chance de ocupar um cargo, de realizar um serviço ou de vender um produto. Pessoas que tiveram suas vidas modificadas e, que no momento difícil, sumiram, negaram os companheiros ou mudaram de lado sob a alegação de que canalhice, covardia e ingratidão são coisas da política.

Triste imaginar que Dirceu, em função da idade e do tempo de pena, poderá ficar preso até seus últimos dias. Porém, o mesmo deitará na sua cela com a sensação que vai pagar sua pena sem ter vendido amigos. Fico imaginando, assim, os que deitam em suas mansões conquistadas neste mesmo período que, ainda que livres, estarão sempre presos ao fato de terem sido covardes e optado pelo caminho mais fácil.

Seja na cúpula da República ou na menor cidade do país, independente dos acertos ou erros em grupo, sempre existirão os que têm honra e os que são desprezíveis. Todos um dia terão um fim. Os homens de honra deixam histórias boas e exemplos, os desprezíveis são tão insignificantes que sempre serão comparados ao maior deles, aquele que vendeu seu líder e seu grupo por 30 moedas.

Há controvérsia sobre o destino das moedas e de Judas mas de seu líder, Jesus, e seus companheiros, os apóstolos, apesar do vacilo de Pedro e da dúvida de Tomé, todos foram homens e mulheres de honra. Afinal, Madalena e Maria também não trocaram de lado.

Não quero nem de longe comparar um grupo ou uma história com a outra. Mas, seja naquele tempo ou nos dias atuais, o homem é o mesmo e a ambição por 30 moedas sempre existirá. Quem tiver amigos de verdade, companheiros de luta sinceros, deve saber que tem o maior tesouro que um ser humano pode ter. Aos desprezíveis, não pode haver pena maior que suas próprias consciências e seu terrível peso que vai se multiplicando com o passar do tempo, se tornando um fardo terrível quando forem os últimos dias.

Posts Relacionados

Ver tudo
[ Charge ]_______________________________

Deixe aqui sua opinião de tema e comentários

Obrigado! Mensagem enviada.

[ Últimas Notícias ]________________________