• Caio Lencioni, Observatório do 3º setor

No Brasil, 13,4 milhões de pessoas vivem em situação de extrema pobreza

De acordo com o Banco Mundial, a situação de pobreza extrema é caracterizada por uma renda per capita mensal de até R$ 133,72 ou US$ 1,90 diário.

Família sobrevive em São Paulo com cerca de R$ 300 mensais

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o primeiro trimestre de 2018 fechou com 13,1% dos brasileiros desempregados.

Além disso, entre os brasileiros com alguma ocupação, metade recebia em média R$ 754, 19,5% abaixo do salário mínimo, no ano passado, de acordo com a PNAD Contínua – Rendimento de todas as fontes em 2017. Enquanto isso, o 1% da população com maiores rendimentos recebia, em média, R$ 27.213.

Um exemplo de família que vive com menos de um salário mínimo é a de Salete Batista, de 49 anos, que vive com a filha Natasha Brígida, 20 anos, e o marido Alexandre Haroldo, de 58 anos. Os três vivem no bairro Cantinho do Céu, que pertence ao distrito do Grajaú, na zona sul de São Paulo.

Para chegar ao bairro, o terminal do Grajaú dispõe de apenas dois ônibus. Depois de aproximadamente 35 minutos, o ônibus chega ao bairro, que também é o ponto final do itinerário. Entre caminhos estreitos e vielas íngremes, a família vive em uma casa de dois cômodos, com renda familiar total de aproximadamente R$ 300 mensais, já que nenhum dos três possui um trabalho fixo atualmente.

A situação da família é de pobreza extrema. De acordo com o Banco Mundial, a situação de pobreza extrema é caracterizada por uma renda per capita mensal de até R$ 133,72 ou US$ 1,90 diário. No Brasil, 13,4 milhões de pessoas vivem nesta situação.

A renda da família vem do programa Renda Mínima, da Prefeitura de São Paulo, do qual Salete diz receber R$ 85 mensais, da catação de latinhas e da venda de balas – atividades desempenhadas por Salete.

Além disso, ela e a filha fazem apresentações de música e dança na calçada de uma avenida movimentada próxima ao bairro. Enquanto a mãe dança e ganha o carisma de todos ao redor, a filha toca violão e canta. “O último show rendeu cerca de R$ 45”, conta Natasha.

O problema em relação aos shows é o desgaste, já que a família não possui um gerador de energia para ligar o amplificador e nem um microfone. “No último domingo não conseguimos ficar muito tempo, já que a Natasha ficou cansada. Por ser uma avenida movimentada, ela tinha que cantar cada vez mais alto”, relata Salete.

Salete diz que, pelo fato de não ter concluído o ensino médio, tem dificuldade em conseguir emprego. “Alguns trabalhos não precisam de estudo, mas fazem questão de exigir. Aí quem não tem qualificação acaba passando necessidade”. Outro desafio que ela enfrenta é o racismo. “Eu já fui rejeitada em várias empresas e restaurantes por ser negra”.

O marido também não consegue colocação no mercado de trabalho formal. Seu último registro na carteira é de 1998. De lá para cá, ele vive de trabalhos informais.

Durante muitos anos, um desses trabalhos era a elaboração de banners, feitos à mão, para lojas. “Só que não consigo mais vender os banners por conta da gestão Kassab”, conta, fazendo menção à Lei Cidade Limpa, que entrou em vigor em 2007 e proibiu banners e outdoors na cidade de São Paulo. Agora, a pouca renda obtida vem do conserto de computadores e eletrônicos, já que no passado ele trabalhava como técnico de informática e eletrônica. Mas a demanda para esse tipo de trabalho é pequena na região. “O bairro aqui é simples. As pessoas não têm condições. Já aconteceu de eu fazer o trabalho e não me pagarem”.

Ele relata que o problema para arranjar emprego fixo é a qualificação. “Na última tentativa, eu quase consegui vaga em uma empresa, mas pediram uma qualificação de um curso que custa R$ 800. Como vou fazer um curso desses se eu não tenho condições?”.

Para tentar complementar a renda da família, ele também pinta quadros e faz peças artesanais, como o pandeiro que Salete e Natasha usam em shows, feito com uma armação de madeira e platinelas de tampas de garrafas.

Alexandre derreteu uma garrafa pet e moldou o plástico de forma com que ficasse parecido com a pele de um pandeiro tradicional. E de fato o som ficou semelhante.

A veia artística de Alexandre transborda nos desenhos realistas de Natasha. Ela começou a desenhar quando ainda era adolescente e foi aperfeiçoando com o passar do tempo.

Hoje ela faz retratos bastante realistas e vende cada desenho por R$ 100. O preço pode parecer alto para alguns, mas é justificado pelo tempo dedicado a cada desenho – aproximadamente uma semana.

Apesar da qualidade dos desenhos, a jovem diz que é difícil alguém comprar um deles ou encomendar um retrato. “De vez em quando eu consigo uma encomenda, mas é raro. As pessoas não se interessam muito por arte”.

Natasha conta que já tentou trabalhar como professora de desenho, mas, por não ter experiência, foi negada no teste. “Eles disseram que estavam sem tempo para dar treinamento e a vaga precisava ser preenchida logo”. Além de desenhar, Natasha também toca violão, guitarra e teclado. “Meu sonho é ser musicista. Quando estou tocando, esqueço os problemas”.

A família tem vontade de sair do local onde vive, mas a renda não permite uma mudança. Além disso, Salete relata que a distância do centro de São Paulo é um agravante para não arranjar emprego. “Eu trabalhava no Morumbi de faxineira, mas o cansaço da viagem era demais. Eu chegava lá sem forças para trabalhar”.

Natasha diz que a mãe é a mais otimista entre os três. Por mais que seja difícil, Salete não perde as esperanças e afirma que o segredo para aguentar essa realidade é a fé em Deus.

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