• Denise Martins Silveira

Minoria radical


Voltando de São Paulo pela Rodovia Presidente Dutra na última quinta-feira, (24), no auge da paralisação dos caminhoneiros me passava pela cabeça que cada caminhoneiro ali parado, prestava um serviço tão importante quanto transportar produtos que é a sua função principal. Constatava que todo caminhoneiro ali é um cidadão que tem familiares com as mesmas necessidades dos familiares da maioria dos brasileiros, sendo difícil entender os que são insensíveis ou os que acham que eles estejam gostando ou ficando parados por puro prazer.

Tenho a nítida impressão que nem o mais otimista organizador do protesto, nem de longe, imaginou a intensidade e a importância dessa mobilização. O povo também, sofrido e cansado, aderiu de várias formas mostrando simpatia e solidariedade desde as ações mais concretas, ajudando com alimentos e estrutura, até as mais simbólicas, buzinando ao passar pelos movimentos ou colocando em seus perfis nas redes sociais o slogan "Somos todos caminhoneiros”.

O Governo Federal apenas tardiamente entendeu a gravidade e, percebendo que não teria como ficar inerte, reuniu a equipe e iniciou um diálogo. Conversou pouco e, apenas com uma parcela de líderes, forçou uma situação que pareceu ser consensual e saiu atacando a paralisação como se fosse uma greve controlada por um líder partidário que tem o total controle sobre uma massa de manobra, como se esses, ao receberem a ordem de recuar, recuariam.

Errou na avaliação a equipe do presidente, pois não se trata de um grupo de funcionários com situação estável liderados por um sindicalista buscando melhorias na condição de trabalho, mas sim, brasileiros de todas as regiões e condições lutando na tentativa de continuar trabalhando muito para sobreviver com dificuldades.

O presidente imaginou que em um gabinete luxuoso de Brasília, apertar a mão de alguém de terno e gravata seria o suficiente para demovê-los da ideia de buscar melhorias em sua profissão. Acreditou o presidente que isso chegaria em profissionais usando roupas informais, confortáveis e surradas pelo longo tempo de uso nas cabines de caminhões. Profissionais que enfrentam buracos, atoleiros, falta de sinalização e obstáculos, dos mais diversos e que muitas vezes encaram jornadas de 12 horas diárias para ganhar em média de um a três salários mínimos.

Na sexta, dia 25, quando surgiu o anúncio de que as forças nacionais iriam agir, sob a alegação de que crianças não podem faltar às aulas, evitar o desabastecimento, garantir os gêneros de primeira necessidade, não deixar hospitais sem insumos e não afetar ainda mais o trabalho dos produtores, o presidente falou em cumprimento de acordo e ameaça em nome do Governo Federal. Convocou também os governadores para multar, apreender, requisitar, enfim, fazer o poder Executivo desse país mostrar seu poder e sua força, infelizmente, sobre trabalhadores que não pedem nada impossível, desde que haja transparência e planejamento por parte dos executivos federal e estaduais.

Todas as alegações do Governo Federal irritam muito, porém, não só irritam os caminhoneiros, mas todos os brasileiros que sabem quantas crianças querem ir à escola e não podem por falta de transporte, merenda ou até mesmo uma sala de aula. Que insumos nos hospitais são insuficientes não por causa da paralisação dos caminhoneiros, mas por falta de governos que cumpram a constituição e garantam uma saúde digna. Que milhares de pessoas, também por culpa desses governos e não dos caminhoneiros, não têm acesso a todos os gêneros de primeira necessidade, e por fim, que o pequeno produtor já foi, há muito, afetado pelo abandono dos menos favorecidos e pela corrupção generalizada.

Os caminhoneiros mostraram na prática que sem eles o Brasil definitivamente para e ensinaram a todos nós brasileiros que, quando queremos conseguimos mostrar que pensamos. Temos limites, se votamos errado a democracia nos permite tentar acertar na próxima, mas a era dos abusos está chegando ao fim e, por fim, estão mostrando que a "minoria radical " está do lado de dentro do Palácio do Planalto acreditando e fazendo seus chefes acreditarem que milhões de brasileiros pagadores de impostos são otários.

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