• Irene Reis dos Santos, Observatório do 3º Setor

A dita cuja nem se foi e há os que a querem de volta

Presente no dito e no silenciado, na conduta das pessoas, na opressão pelo conhecimento outorgado por títulos – patentes, no território escolar como um todo, nos seus muros, na base, no plano e nas estratégias, na fileira que prima pela nuca antes dos olhos, na disciplina, na grade. Nas grades! A ditadura que jamais se foi da educação, ameaça com seu retorno.

Foto: Divulgação

De 1964 a 1988 o Brasil vivia seus dias sombrios durante a ditadura militar e há os que defendam sua volta, daí a importância de ouvirmos educadores para entendermos o que em 2018 já superamos desta época, e qual foi seu legado.

Talvez, o maior legado da ditadura tenha sido o favorecimento da privatização do ensino.

Demerval Saviani, professor da Unicamp, em seu artigo: O legado educacional do regime militar, escrito em 2008, sem pretender esgotar o tema, destaca os seguintes pontos: vinculação da educação pública aos interesses e necessidades do mercado; favorecimento da privatização do ensino; implantação de uma estrutura organizacional que se consolidou e se encontra em plena vigência; institucionalização da pós-graduação.

Sobre tal legado, fui me aconselhar com nossos conselheiros da CORE – Comunidade Reinventando a Educação: José Pacheco e Rosane Borges; Eder Magalhães e José Ruy Lozano.

Coincidindo com o artigo de Demerval, José Pacheco, professor durante a época da ditadura portuguesa, famoso por projetos como a Escola da Ponte e no Brasil o Projeto Âncora, destaca que durante a ditadura no Brasil, ocorreu um surto de escolas particulares porque houve um protecionismo e, no que se refere ao trabalho nas escolas, pouco ou nada mudou. Mas ao não mudar, e essa é uma explicação sociológica, sócio-histórica, a herança cultural do autoritarismo manteve-se, reproduziu-se, ampliou-se dentro de uma escola que imaginavam neutra. A mesma história da escola sem partido. Cantar ou não cantar o hino não é o mais relevante.

Gigantes escolas privadas da cidade de São Paulo se erguem ainda mais, muitas delas, neste momento, diminuindo cada dia mais o valor do professor, reduzindo todos a números: no caso do professor, quanto ele custa; no caso das famílias, quanto elas gastam – criando na estrutura escolar sempre um produto novo a ser consumido –; no caso do aluno, quanto de retorno ele dá à instituição, com seus números de aprovados em exames.

Tudo se reduz a quanto e este quanto é estabelecido em cifras que de educacional têm bem pouco.

Antes de aceitar fazer um teste para uma grande escola de São Paulo, a pessoa que me contata me avisa que melhor que eu não tenha filhos, porque nesta escola filho de professor não tem direito à bolsa. Mas ainda querem acreditar na democracia do diálogo.

Eu, professora, que cuido dos filhos dos demais, não terei meu filho cuidado nesta instituição. Claramente, não faço parte do estamento e ainda assim contribuirei com sua formação. É o autoritarismo do poder do dinheiro.

A professora da USP, Rosane Borges, afirma que são muitos os legados. Ainda temos, segundo ela, o entulho do autoritarismo na forma das nossas práticas pedagógicas. A despeito de muita coisa ter mudado, de a gente ter instalado outras formas de socialização, processos democráticos de gestão, a nossa educação ainda padece do entulho do autoritarismo ao considerar que só alguns e algumas devem partilhar o comum de uma coletividade, só alguns e algumas têm a legitimidade para pensar as políticas pedagógicas. O entulho autoritário contaminou a nossa educação formal e isso ainda se reflete nas práticas cotidianas, da gestão às práticas de transmissão em sala de aula.

Para Eder Magalhães, professor da EMEF João Domingues Sampaio, o regime militar destruiu sonhos. Destruiu, por exemplo, os ginásios vocacionais, que tinha uma proposta libertadora e crítica. Deixou uma estrutura hierarquizada, rígida, uma arquitetura cheia de grades e cadeados. E deixou a pior das heranças que é uma geração com dificuldades de pensar e fazer uma educação fora das grades, fora do autoritarismo, das disciplinas, do pensamento crítico, fora do controle dos sinais de troca de aulas, de carteiras enfileiradas, em ordem, uma atrás da outra.

Medo gerou medo.

Há um forte investimento na cultura do medo. Ela justifica muitas ações, como o professor José Ruy Lozano adverte em seu artigo: “No debate sobre educação, a manipulação do medo tem propósitos certeiros: o que se deseja de verdade é eliminar qualquer vestígio de pensamento crítico nos jovens pobres, adestrá-los como mão de obra servil, imprimir-lhes a obediência como princípio fundamental.”

Será que este medo paralisante gera tristeza e esta a depressão? A depressão, que acomete cada vez mais educadores; a ansiedade entre alunos, casos de suicídios entre jovens, não serão também consequência e legado destes sonhos roubados aos quais se refere o professor Eder? Quem pode ser livre convivendo com o legado do autoritarismo, do entulho autoritário, como nos alerta a professora Rosane Borges? Como acreditar que colocar o filho na escola mais cara da cidade, que oferece recursos internacionais, é a solução, ignorando que os filhos de outros não têm escolas, perpetuando e ampliando uma sociedade não das oportunidades, mas dos privilégios, como alerta o professor Pacheco? Por que ignoramos que, por lei, os governos devem garantir o acesso universal à educação básica, como lembra José Ruy Lozano?

Fosse boa, seria Bandeira, não precisaria pedir licença, seria a dita preta, dita boa, dita sempre de bom humor. Seria dita mole, dita branda.

Jamais ditadura!

[ Charge ]_______________________________

Deixe aqui sua opinião de tema e comentários

Obrigado! Mensagem enviada.

[ Últimas Notícias ]________________________