• Silviane Neumann

Negligência com a saúde pública traz de volta a raiva em humanos no Sudeste

Desde 2008, as campanhas públicas de vacinação contra a raiva animal vêm sendo desmanteladas. O resultado é que, de tempos em tempos, ficamos sabendo de mortes de humanos por raiva, como o adolescente de 13 anos mordido por um morcego em janeiro, em Angra dos Reis, que faleceu em março na capital. O estado do Rio não registrava casos da doença há 14 anos.

Ubatuba registrou um caso de raiva humana em 2018, no bairro da Casanga - Foto: Reprodução Google Maps

A raiva é mortal em 99% dos casos, tanto em humanos quanto em animais de estimação. Não tem tratamento, só prevenção, a vacina antirrábica. Por esse motivo, desde há muito tempo o governo federal realiza campanhas de imunização para cães e gatos, que são os animais mais próximos dos seres humanos. A intenção das campanhas era controlar o vírus nas cidades e comunidades, já que a doença atinge qualquer mamífero.

Durante décadas de campanhas bem sucedidas, o vírus foi controlado, mas está longe de ser extinto. Mas desde 2008, o governo federal, que repassa as doses de vacina para estados e municípios, resolveu trocar as vacinas importadas por uma nacional. Aos poucos, com a situação quase sob controle, a campanha antirrábica vem sendo deixada de lado.

Segundo dados do Ministério da Saúde, no período de 2010 a 2017 foram registrados 25 casos de raiva em humanos no país.

Usando quase sempre vacinas nacionais e não fornecendo a quantidade necessária de doses para cada município, o governo jogou para as prefeituras a responsabilidade pela campanha de vacinação. E entre 2012 a 2016, as coberturas vacinais dos municípios sofreram variações, ficando abaixo dos 80% dos animais vacinados em alguns deles, conforme dados do Ministério da Saúde.

Na prática, a vacinação maciça deu lugar à uma vacinação ineficiente e que está dando espaço, pouco a pouco, para o vírus. Esporadicamente, ouvimos relatos de animais infectados também no interior de São Paulo. Em 2019, foram 92 casos confirmados de animais infectados, incluindo morcegos (em sua grande maioria), bovinos, ovinos e 19 deles, entre cães e gatos. Todos vieram a óbito.

Em 2018, Ubatuba registrou a morte de um turista do Paraná por raiva humana. Segundo informações da prefeitura, ele teve um acidente com um morcego, no bairro Casanga, e não buscou atendimento médico. Foi o primeiro caso de raiva humana no estado de São Paulo em mais de 10 anos.

São poucos casos, é verdade, mas são suficientes para acenderem o alerta para o retorno do vírus com força. Se nada for feito para contê-lo, no futuro próximo estaremos novamente lidando com cães e gatos à mercê da raiva. E, por conseguinte, humanos também ficarão novamente suscetíveis.

Quem pode, vacina em clínica particular. Mas, e quem não pode? Quem não pode, não vacina e ponto. Por isso é imprescindível que os municípios invistam em uma campanha de vacinação antirrábica eficiente e de qualidade. E isso só vai acontecer se a sociedade pressionar. É questão de saúde pública, estamos falando de vidas e vidas importam.

Pelo que estamos passando no momento, já sabemos que no que diz respeito à saúde pública, a negligência do poder público pode custar muitas vidas.

Silviane Neumann é ativista na causa animal. Desde 2009 atua em Ubatuba para melhorar as políticas públicas voltadas ao bem-estar animal. Através da Help Pet Ubatuba, suas ações são focadas em conscientização sobre guarda responsável de animais e em promover castrações e ajuda para tutores carentes. Como protetora, trabalha para tornar Ubatuba uma cidade que é contra a exploração animal e respeita os animais domésticos e silvestres, o meio ambiente e sua rica diversidade. Como cidadã, exige e cobra dos órgãos públicos que as leis destinadas ao bem-estar animal e à proteção do meio ambiente sejam cumpridas. Neste espaço, contará um pouco do seu dia a dia e as conquistas de Ubatuba nessa área. Além de expor as necessidades e também os contrassensos que vivencia em sua luta diária pelos animais e meio ambiente.

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